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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Tragédia em Brumadinho: 30 minutos de terror sem alerta


Seguindo o rastro da avalanche pelos principais pontos atingidos, a BBC News Brasil refaz o trágico percurso dos quase 12 milhões de metros cúbicos de lama pelo relato de sobreviventes.


Por BBC

07/02/2019 17h20 Atualizado há 16 horas



Buscas Brumadinho bombeiros cães de Uberaba — Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação



A onda da lama que vazou da barragem 1 da mina Córrego do Feijão, sem alarme, na sexta-feira, 25 de janeiro, levou menos de meia hora para chegar ao último ponto onde pode ter feito vítimas.


Essa é a estimativa do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. A BBC News Brasil também teve acesso ao plano de emergência da mineradora Vale, responsável pelas instalações, que mostra que a previsão era a mesma – 24 minutos até o bairro Parque da Cachoeira, nas imediações do rio Paraopeba. Segundo os cálculos, a velocidade da lama seria de quase 80 quilômetros por hora ao deixar a barragem e de cerca de 20 ao chegar ao bairro.


Foram atingidos, nessa ordem: a área operacional da mina; a área administrativa, onde ficavam escritórios e o refeitório; uma conhecida pousada da região; o bairro Parque da Cachoeira e, finalmente, o rio.


Nesse percurso, a lama atingiu também casas, plantações e muitos hectares de mata. Acredita-se que a maior parte das mortes tenha acontecido na área administrativa da mina. Naquele dia, trabalhavam no complexo cerca de 600 pessoas, entre funcionários da Vale e terceirizados, diz a empresa.


Quando a espessa onda de lama desaguou no rio Paraopeba, havia percorrido nove quilômetros de vale, soterrando centenas de pessoas pelo caminho. Até a tarde de quarta-feira, 6 de fevereiro, havia 150 mortes confirmadas e 182 pessoas seguiam desaparecidas.


Seguindo o rastro da avalanche pelos principais pontos atingidos, a BBC News Brasil refaz o trágico percurso dos quase 12 milhões de metros cúbicos de lama pelo relato de sobreviventes.


Procurada, a Vale afirmou, em nota, que o plano de emergência foi construído com base em estudos técnicos de cenários hipotéticos para o caso de um rompimento. "Disse ainda que a estrutura tinha todas as declarações de estabilidade aplicáveis e passava por constantes auditorias externas e independentes, além de sistema de vídeo-monitoramento, sistema de alerta através de sirenes e cadastramento da população à jusante."



Segundo a empresa, foi realizado o simulado externo de emergência em 16 de junho de 2018, sob coordenação das Defesas Civis e com o apoio da Vale, e o treinamento interno com os funcionários em 23 de outubro de 2018.




Área operacional e de produção da mina do corrégo do Feijão




Quando a barragem se desfez, a lama vazou a uma velocidade de 21,3 metros por segundo, pouco mais de 76 quilômetros por hora. A avalanche atingiu a área operacional em segundos.


Ela fez uma curva e seguiu em direção a onde estava o eletricista José Valério de Jesus, de 49 anos, perto do terminal de carregamento do trem. Funcionário de uma empresa terceirizada, José estava participando da instalação de um equipamento de combate a incêndio.


No final da manhã, perto das 11h, pegou o ônibus da Vale que leva funcionários da área operacional para a área administrativa, onde ficava o refeitório. José almoçou e, ao meio-dia, já estava de volta ao canteiro onde trabalhava.

'Pensei: como pode, coisas que estavam lá há tantos anos, acabaram em segundos', diz o eletricista José Valério de Jesus — Foto: BBC News Brasil


"De repente, ouvi um estrondo, um barulho muito esquisito, mesmo. Vi muita poeira e o pessoal da Vale saiu correndo. Eu fui atrás, seguindo eles", conta o eletricista, em sua casa, mais de uma semana depois da tragédia.



Ele diz que, de onde trabalhava, era possível ver os alarmes de emergência, mas, naquele dia, eles não soaram.


A estrada pela qual José e outros colegas sobreviventes correram não era uma rota de fuga prevista pela Vale, mas o levou a um ponto alto, do qual ele assistiu o avanço da lama.


Quando chegou lá em cima, ela já havia soterrado toda a área administrativa, onde estavam vários de seus colegas.


"Quando tudo acabou, não conseguia reconhecer mais nada. Pensei, 'como pode, coisas que estavam lá há tantos anos, acabaram em segundos'."


"Isso (o trauma) vai levar anos para passar. Tem dias em que a gente acorda bem, tem dias em que não", conta ele, que está fazendo um tratamento psicológico oferecido por sua empresa.




Área administrativa




A lama desceu o vale em direção à área administrativa, logo abaixo da operacional. Segundo os bombeiros, levou um minuto e meio para atingir o setor.


Marco Antônio Ribeiro da Silva, o Marcão, técnico da Vale, tinha acabado de almoçar e estava sentado na frente do refeitório, mexendo no celular e cumprimentando as pessoas que entravam.


"Foi de uma hora para outra. Ouvi um barulho de mar, olhei para cima e vi muita água descendo pelo pé das árvores. Logo atrás vinha uma onda de lama de dois postes e meio de altura, misturada com tudo que estava pegando, galpão, telhas. Eu clamei, 'Jesus, misericórdia'", conta ele, que é evangélico e frequenta uma igreja batista.


"Corri ladeira abaixo, com a lama vindo atrás de mim. Caí uma vez, caí outra vez, pensei que ali acabaria, mas levantei. Passei uns três segundos olhando para os meus amigos correndo, olhando para a lama. Vi ela carregando caminhonetes, todas vazias, porque o pessoal estava almoçando naquela hora. Deus me segurou naquele momento ali para dar tempo da caminhonete chegar."



Ele ouviu alguém gritar "caminhonete, caminhonete!". Em seguida, se agarrou à canela de alguém de estava na caçamba. Até agora não sabe quem era. A picape estava lotada de gente dentro e na carroceria.


"O motorista fez a rota de fuga direitinho. Ele foi seguindo, passando por quebra-molas, e eu pendurado ali atrás. Já não tinha mais o risco da avalanche, estávamos mais longe, mas ninguém sabia onde aquilo (a onda) ia parar. O barulho continuava, e a gente achava que ia nos pegar. Passamos pelo viaduto, que depois caiu. E chegamos num ponto mais alto, aí o carro parou."


Ali, Marcão ligou para a família, contou que estava bem e orou. "Agradeci a Deus e pedi a ele discernimento para ajudar as pessoas." Passou a colaborar com os bombeiros no transporte de sobreviventes e materiais. Do alto, viu o curso da lama e comentou com um colega, "está acabando uma região". Naquela noite, não dormiu. "Eu ficava vendo aquelas mesmas imagens [da lama chegando] sem parar."




Pousada




A Pousada Nova Estância Inn ficava mais abaixo no vale, perto do complexo mineiro. Foi a próxima grande estrutura a ser varrida pela lama. O charmoso hotel costumava hospedar turistas que vinham a Brumadinho para conhecer Inhotim, o famoso museu a céu aberto de arte contemporânea que fica na região.


A onda que desceu da barragem foi tão violenta que a pousada se deslocou de lugar, segundo o Corpo de Bombeiros. O plano de emergência da Vale previa que a lama chegaria ali em quatro minutos.


Jefferson Firmiano, de 21 anos, diz que trabalhava no jardim. Ele conta que tinha acabado de almoçar, numa casinha logo abaixo da estrutura principal da pousada. "Eu tinha o costume de almoçar do lado de fora, na varanda. Se estivesse lá dentro, a lama teria me carregado", diz ele.


Área próxima à localização da Nova Estância Inn: pousada foi varrida pela lama — Foto: BBC News Brasil


"Olhei para cima, vi água descendo e gritei para o meu colega, 'rompeu a barragem!' Saí correndo morro acima e só parei quando vi que a lama estava longe. Lá no alto encontrei o pessoal da Vale que tinha sobrevivido", conta Jefferson.


Eles ficaram no alto da encosta, esperando socorro, até anoitecer. Nos dias seguintes, Jeferson voltou ao lugar onde ficava a pousada. Encontrou apenas a ponta de um alicerce da casa principal.


A maior parte dos funcionários e hóspedes estão mortos ou desaparecidos, como cinco membros da mesma família, entre eles Luiz Taliberti Ribeiro e sua noiva, Fernanda Damian de Almeida, que está grávida. Eles moram na Austrália e haviam acabado de chegar para conhecer o Inhotim.




Parque da Cachoeira




A lama continuou descendo, rumo ao rio Paraopeba, passando por propriedades rurais e áreas de mata densa. O último lugar com muitas potenciais vítimas a ser atingido antes que a lama desaguasse no rio foi o bairro de Parque da Cachoeira. Os bombeiros estimam que a avalanche de detritos tenha chegado ao local em menos de meia hora.


Localizado na zona rural de Brumadinho, fica a cerca de dois quilômetros do centro e cerca de nove quilômetros da barragem, nas imediações do rio.



Há alarmes de emergência do bairro, mas eles não soaram, dizem moradores. Depois de ter encontrando tantos obstáculos pelo caminho - como árvores e edificações -, ali a lama corria mais lentamente do que em pontos anteriores, o que evitou uma tragédia maior ainda, explica o tenente Pedro Aihara, porta-voz do Corpo de Bombeiros.


No bairro, a onda atingiu dezenas de casas e plantações. Segundo moradores, muitas pessoas têm sítios ali, que frequentam nos fins de semana.


Um deles pertence a Mauro Tadeu Soares. Na sexta-feira do "crime", como Mauro descreve o rompimento da barragem, ele estava em Ubatuba, em São Paulo, com a mulher e os filhos. Ele conta à BBC News Brasil o que lhe relataram sua irmã, o marido dela e sua mãe, de 85 anos, que estavam na casa.


A mãe depois contou ao filho que estava almoçando na mesa da piscina naquele momento. O cunhado viu uma árvore grande cair e disse, "deve ser o trem (da Vale, que passa perto) que virou".


No domingo anterior, a vizinha tinha dito à mãe de Mauro que a Vale pretendia fazer um treinamento de evacuação. Elas comentaram que, se a barragem estourasse, tudo ficaria soterrado. Quando viu a árvore caindo, a mãe entendeu o que estava acontecendo e falou, "não, foi a barragem que virou. Vamos embora."


"Meus parentes depois me contaram que a cena parecia um tsunami. Árvores se quebravam como se fossem galhos. Eles ouviam um barulho de água correndo", conta Mauro.


A mãe pegou a bengala e foi indo em direção ao portão, com a ajuda do cunhado. Ele voltou para buscar a mulher e o cachorro. Nesse meio tempo, a vizinha, que estava fugindo de carro, viu a mãe de Mauro no portão, voltou e a buscou.


Quando entrou em casa novamente, dias depois, a família viu que a lama subiu no muro e parou. "Foi a mão de Deus que parou a lama", disse a mãe de Mauro.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Um terço do lixo da América Latina e Caribe acaba em lixões ou na natureza, diz relatório da ONU



Todos os dias, 145 mil toneladas de lixo são descartadas de maneira incorreta — a quantidade equivale ao que é gerado por 27% da população latino-americana e caribenha ou 170 milhões de pessoas.

Os números são de pesquisa da ONU Meio Ambiente, divulgada hoje (9) em Buenos Aires, durante um fórum regional de ministros.

ONU
Aterro sanitário em Jardim Gramacho, RJ. Foto: Wikimedia (CC)/D’Arcy Norman



Um terço de todos os resíduos urbanos gerados na América Latina e no Caribe ainda acaba em lixões ou no meio ambiente, uma prática que contamina o solo, a água e o ar da região e afeta a saúde de seus habitantes. O alerta é de um relatório da ONU Meio Ambiente, publicado na terça-feira (9) em Buenos Aires, durante o XXI Fórum regional de Ministros do Meio Ambiente. Evento teve início nesta terça-feira e segue até 12 de outubro na capital argentina.

Todos os dias, 145 mil toneladas de lixo são descartadas de maneira incorreta — a quantidade equivale ao que é gerado por 27% da população latino-americana e caribenha ou 170 milhões de pessoas. Os números foram divulgados na pesquisa Perspectiva sobre a Gestão de Resíduos na América Latina e no Caribe.

A análise da ONU Meio Ambiente estimula os países a fechar os lixões. Segundo a agência internacional, esses locais apresentam alto risco para a saúde das pessoas que moram no seu entorno, bem como para quem coleta materiais recicláveis descartados. As áreas também são uma fonte de emissão de gases do efeito estufa, afetam negativamente o turismo e a agricultura e ameaçam a biodiversidade.

As nações da América Latina e Caribe avançaram na coleta de resíduos, que já cobre cerca de 90% da população. Porém, diariamente, 35 mil toneladas de lixo não são coletadas, um problema que afeta especialmente as áreas pobres e comunidades rurais, com impactos na vida de mais de 40 milhões de pessoas.

A região enfrenta ainda o desafio de chegar a uma economia circular: apenas 10% dos resíduos são reaproveitados por meio da reciclagem ou de outras técnicas de recuperação de materiais, segundo o relatório.

“Os países da América Latina e do Caribe devem dar prioridade política máxima para a gestão adequada dos resíduos. Isso é uma forma de reforçar a ação climática e de proteger a saúde de seus habitantes”, afirmou o diretor regional da ONU Meio Ambiente, Leo Heileman.

A pesquisa do organismo mostra que a geração de resíduos na região cresce continuamente e irá aumentar em pelo menos 25% até 2050. Entre as causas desse fenômeno, estão tendências verificadas em outras partes do mundo — o crescimento populacional; a urbanização; o crescimento econômico; a saída de uma quantidade significativa de pessoas da pobreza para uma classe média emergente; e padrões claramente insustentáveis de produção e consumo. Atualmente, 80% dos habitantes da América Latina e Caribe vivem em cidades.

Segundo o documento da ONU Meio Ambiente, melhorar a gestão do lixo é uma medida fundamental para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), acordados pelos líderes mundiais em 2015.

“Uma verdadeira agenda de desenvolvimento sustentável deve incluir a gestão adequada de resíduos. Os benefícios ambientais, sociais e econômicos associados a este setor são substanciais e vão desde a redução de gases de efeito estufa e economia de matérias-primas até a melhoria da matriz energética dos países, criação de empregos e aumento do investimento”, acrescentou Heileman.

Ainda de acordo com o estudo, uma fonte de poluição que precisa de atenção especial e urgente é a de resíduos perigosos, que inclui dispositivos eletrônicos, resíduos hospitalares ou associados à construção. Frequentemente, esse tipo de lixo não é nem mesmo inventariado e caracterizado, embora alguns países tenham conquistado avanços legislativos na área.
Oportunidades de transição

A publicação detalha oportunidades de melhoria para a região, como a gestão especial de resíduos orgânicos ou a aplicação de princípios da economia circular.

Os resíduos orgânicos representam, em média, 50% do lixo gerado pelos países latino-americanos e caribenhos. A falta de tratamento específico para esses resíduos leva à liberação injustificada de gases do efeito estufa na atmosfera, como o metano, e à produção de chorume. O problema também diminui a qualidade de materiais recicláveis ​​que estão no lixo. O relatório das Nações Unidas recomenda promover a separação dos resíduos orgânicos na fonte e incentivar seu uso por meio de práticas sustentáveis, como a compostagem.

A pesquisa aponta ainda que cerca de 90% dos resíduos coletados são destinados a locais de descarte, sejam aterros ou lixões, ou seja, não são reaproveitados nem reciclados. A ONU Meio Ambiente pede que a região abandone esse esquema insustentável. O organismo defende que os resíduos sejam tratados como recursos valiosos — segundo a agência, com o design, é possível desenvolver produtos que permitem a reutilização do lixo após um primeiro uso do material descartado.

O lixo pode, assim, tornar-se matéria-prima secundária ou fonte alternativa de energia para substituir os combustíveis fósseis.

O relatório também alerta para a fragilidade institucional da gestão do lixo em nível regional. Isso se deve parcialmente à sobreposição de normas, que concedem competências concorrentes a diferentes áreas do mesmo governo. É importante que as leis e políticas estabeleçam estruturas comuns, promovam o investimento público e privado, a educação e a participação do cidadão, além de incluir indicadores de gestão.

Segundo o documento, países devem considerar como prioridade a formalização e profissionalização dos trabalhadores que lidam com a coleta e reciclagem de resíduos. Embora essa mão de obra tenha sido integrada em várias nações ao serviço público de saneamento urbano, a falta de reconhecimento formal é uma constante na maioria dos países da América Latina e do Caribe.

Para orientar governos em suas políticas de gestão, a publicação lembra experiências bem-sucedidas na região, como um programa no México que promove a reciclagem de telefones celulares; a coleta seletiva no município de Alvarado, na Costa Rica; a proibição de sacolas plásticas em Antígua e Barbuda; e o sistema de troca de lixo reciclável por alimentos, desenvolvido em Curitiba, no Brasil, há mais de duas décadas.

Baixe o resumo executivo clicando aqui.

Baixe o relatório clicando aqui.



Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/10/2018

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Depois de quase três anos, sai acordo de indenização a vítimas da tragédia de Mariana



Quase três anos após o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), a Samarco e o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) firmaram o acordo que assegura indenização aos membros da comunidade atingida pela tragédia.

O distrito de Bento Rodrigues, dois anos após o rompimento da barragem – José Cruz/Arquivo/Agência Brasil


Com a oficialização do acordo, a Samarco, empresa controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton, e a Fundação Renova, organização criada para articular as ações de reparação, terão até três meses para se manifestar quanto aos valores de indenização pleiteados pelas vítimas, que serão estabelecidos conforme seu perfil e os danos sofridos.

Segundo o promotor de Justiça do município, Guilherme de Sá Meneghin, o acordo prevê a reparação integral de todos os prejuízos sofridos, incluindo danos morais. Caso a pessoa discorde da proposta apresentada pela mineradora, poderá recorrer a um processo de liquidação e cumprimento de sentença, no qual contestará o valor oferecido e indicará a quantia que acredite ser justa.

Pelo acordo, a negociação deverá ser concluída em um ano. Se descumprirem algum dos prazos determinados, as empresas ficam sujeitas ao pagamento de multas, convertidas em favor das vítimas.

Um dos maiores trunfos do acordo, esclareceu Meneghin, reside no fato de as vítimas terem, agora, até três anos para acertar um valor de indenização. Isso se explica porque o acordo garantiu a interrupção da prescrição de seus direitos, já que o prazo para abrir um processo de pedido de indenização caducaria em 5 de novembro, quando o rompimento da barragem completará três anos.

Além disso, o acordo pôs à disposição das vítimas advogados cujos honorários são cobertos por contas da Samarco bloqueadas judicialmente. “Havia risco de prescrição. Uma insegurança jurídica, na verdade, porque muitos juízes entendem que, em uma ação coletiva, o direito individual das vítimas não prescreve, mas outros [juízes], não [entendem assim]”, afirmou o promotor.

“O acordo foi muito bom, excelente, garante reparação legal. E colocamos, ainda, uma cláusula específica, onde as empresas reconhecem a vulnerabilidade das vítimas. Então, se, eventualmente, um juiz tiver que julgar, ele tenderá a ser mais favorável [à defesa das vítimas]”, acrescentou Meneghin.

Conforme cálculos do promotor, cerca de 3 mil pessoas já estão inscritas no cadastro dos atingidos que solicitam a compensação financeira. Porém, o número de requerentes pode chegar a 4 mil. “É um grupo muito heterogêneo. Temos desde trabalhadores rurais até empresários com patrimônio significativo”, comentou.

Como a indenização paga às famílias será personalizada e gradualmente definida, o montante total desembolsado pela Samarco não pôde ainda ser calculado. Informações do MPMG revelam que parte das indenizações será paga com os valores da Ação Cautelar 0400.15.3839-1, que resultou no bloqueio de R$ 300 milhões das contas da Samarco.
Outro lado

Perguntado sobre a possibilidade de a Samarco retomar suas atividades na região, Meneghin afirmou que a companhia “não tem condição nenhuma de voltar.” Nesta segunda-feira (1º), a mineradora informou, em seu site, que começaram nesta semana o início das obras de preparação da Cava Alegria Sul, no Complexo de Germano, situado entre os municípios mineiros de Mariana e Ouro Preto.

A Agência Brasil tentou obter um posicionamento sobre o acordo com membros do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) sobre o acordo celebrado. Em julho, o MAB acusou as três empresas e a Fundação Renova de “tentar apagar o crime da Samarco”, ao demolir a última casa de Barra Longa (MG), município também impactado pela lama gerada pelo rompimento da Barragem de Fundão.

Em nota enviada à Agência Brasil, a Samarco diz que reforça o compromisso com as comunidades impactadas pelo rompimento da Barragem de Fundão e que já destinou, até agosto deste ano, R$ 4,4 bilhões a ações de reparação e compensação. “O acordo homologado nesta terça-feira (2) é de suma importância para concluir o pagamento das indenizações aos moradores atingidos no município de Mariana”, acrescentou.

O rompimento da Barragem de Fundão ocorreu em novembro de 2015. Na ocasião, foram liberados no ambiente cerca de 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos, que provocaram devastação da vegetação nativa, poluição da Bacia do Rio Doce e destruição de comunidades. No incidente, considerado a maior tragédia socioambiental do país, 19 pessoas morreram.

Por Letycia Bond, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/10/2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Doenças ligadas à falta de saneamento geram custo de R$ 100 mi ao SUS


As internações hospitalares de pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS), em todo o país, por doenças causadas pela falta de saneamento básico e acesso à água de qualidade, ao longo de 2017, geraram um custo de R$ 100 milhões.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, ao todo, foram 263,4 mil internações. O número ainda é elevado, mesmo com o decréscimo em relação aos casos registrados no ano anterior, quando 350,9 mil internações geraram custo de R$ 129 milhões.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cada dólar investido em água e saneamento resultaria em uma economia de US$ 4,3 em custos de saúde no mundo. Recentemente, organizações ligadas ao setor privado de saneamento, reunidas em São Paulo, reforçaram a teoria da economia produzida por este investimento. Pelas contas do grupo, a universalização do saneamento básico no Brasil geraria uma economia anual de R$ 1,4 bilhão em gastos na área da saúde.

No mesmo evento – Encontro Nacional das Águas – os representantes das empresas apontaram que dos 5.570 municípios do país, apenas 1.600 têm pelo menos uma estação de tratamento de esgoto e 100 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à tratamento de esgoto.

Atualmente, de acordo com o Instituto Trata Brasil, apenas 44,92% dos esgotos coletados no país são tratados. O Brasil tem uma meta de universalização do saneamento até 2033. Este objetivo previsto no Plano Nacional de Saneamento Básico, representaria um gasto de cerca de R$ 15 milhões anuais, ao longo de 20 anos. E este é um dos desafios para os governantes a serem eleitos em outubro.

A reportagem da Agência Brasil visitou Maceió, capital de Alagoas, cidade onde o percentual de coleta de esgoto é 11 pontos percentuais inferior à media do país (51,9%).
Maceió

Quem chega a Maceió logo se deslumbra com azul do mar e a simpatia dos moradores. Mas, basta um olhar mais atento em direção oposta à praia para concluir que o deleite visual produzido pela natureza disputa espaço com canais de esgoto a céu aberto. O mais grave é que grande parte dos dejetos, que corre ao longo de rios e riachos e cruza diversos bairros da cidade, acaba desaguando no mar.

“Temos praias lindas, mas nós não usamos porque sabemos que são bem poluídas. Temos a Lagoa Mundaú, dentro da cidade, e correndo para ela que tem vários braços de rios e riachos que, inclusive passam por bairros nobres, e todos servem para despejo de dejetos e lixos das casas”, lamentou a advogada Rita Mendonça.

Alagoana e atuante em direitos humanos, Rita reconhece que foram feitos investimentos na área de saneamento, mas a população cresceu em velocidade desproporcional aos recursos aplicados. Outro alerta recai sobre a falta de conscientização dos próprios habitantes. “As pessoas jogam lixo nesses rios e riachos porque não podem esperar o lixeiro passar. E todos desembocam no mar”, lamentou.

A realidade para quem vive o dia a dia na capital alagoana tem reflexos que vão além da balneabilidade das praias urbanas. Na economia, famílias que já vivem em situações mais precárias e dependem da pesca do sururu correm o risco de terem a fonte de renda comprometida. Em 2014, o molusco, largamente encontrado nas regiões lacustres de Alagoas em função dos encontros de água doce e salgada, foi registrado como patrimônio imaterial do estado. Moradores, agora, relatam e lamentam a redução do volume pescado em decorrência da poluição da água.


Em Maceió, moradores reclamam que esgoto e lixo ficam a céu aberto – Carolina Gonçalves/Agência Brasil


O comércio é também alvo do problema. Empresária e dona de uma loja de roupas no bairro da Jatiúca, Vanessa Taveiros, aponta para o esgoto que corre ao lado de um dos restaurantes mais badalados de Maceió. “Já foram feitas várias denúncias e nada é feito. Quando chove, tudo fica alagado, tem ruas aqui na Jatiúca que nenhum carro passa e os lojistas ficam sem vender porque fica tudo interditado”, disse.

Na saúde, os problemas relacionados ao saneamento aparecem em números de sete dígitos. Segundo o Ministério da Saúde, em todo o estado, ao longo de 2017, foram gastos mais de R$ 2,2 milhões com 5.183 internações no SUS de pacientes com doenças ligadas à falta de saneamento básico e acesso à água de qualidade. No mesmo ano, em todo o país, o total de gastos com este tipo de internação somou R$ 100 milhões.

O rol dessas doenças inclui desde diarreias e problemas dermatológicos até infecções mais graves, cólera, sarampo, além do agravamento de epidemias, já que a exposição do esgoto a céu aberto aumenta condições para a proliferação do mosquito transmissor de dengue, chikungunya e zika.

Maceió não é uma cidade planejada e é possível ver que o problema do saneamento afeta todas as classes econômicas. Algumas ruas começam na praia, como na Jatíuca, com prédios e casas visualmente de classe média alta, e terminam em trechos extremamente pobres. O despejo de lixo nos rios e riachos é feito por parte da própria população, mas também é parte dos alagoanos que lamenta os efeitos dessa prática.


Capital alagoana sofre com a falta de saneamento básico – Carolina Gonçalves/Agência Brasil


“Não vou esquecer nunca. A gente saia da escola e vinha direto para a Praia da Avenida. Era aqui que passávamos os finais de semana com a família também. Agora é impossível”, lamentou o taxista, de 54 anos, que não quis se identificar. Segundo ele, até dejetos de um hospital foram lançados pelo canal que desemboca na praia que faz parte de seu imaginário.

A concessão dos serviços de saneamento é da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) que, em função do período eleitoral, preferiu não conceder entrevistas. Em nota enviada à Agência Brasil, assessores informaram que, dos 102 municípios do estado, a Casal opera em 77. Desses, 12 têm rede coletora de esgoto, incluindo Maceió. Em vários municípios do interior, existem obras de implantação de rede da Funasa e da Codevasf, que são órgãos federais. “Somente após a conclusão dessas obras é que os sistemas são entregues para a Casal operar”, destacaram os assessores.

De acordo com o Ministério das Cidades, estão previstos no orçamento investimentos da ordem de R$ 277 milhões para a capital alagoana. Esse total inclui desde abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos sólidos e estudos e projetos. “Já foram concluídos 5 empreendimentos, no valor de R$ 76,5 milhões, beneficiando 83,8 mil famílias”, informou a assessoria do órgão.

Ainda diante de números produzidos pela pasta – divulgados pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) – em 2016, 96,2% da população de Maceió foram atendidas com rede geral de abastecimento de água e 40,3%, com coleta de esgoto, “independentemente de existir tratamento”. Com relação ao total da população representada pelos municípios que responderam ao SNIS no ano de referência, Maceió tem o índice de abastecimento de água superior à média do Brasil (93%) e índice de atendimento total de esgoto 11 pontos percentuais inferior ao do país (51,9%).



Por Carolina Gonçalves, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/09/2018