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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Usinas Hidrelétricas na Amazônia

 



Custo da Usina de Belo Monte já ultrapassou os R$30 bilhões



Em pleno debate sobre os impactos da construção da usina no Rio Xingu, a grande questão é: as hidrelétricas são necessárias na geração de energia no país?

[Por Deborah Rezaghi, para o EcoDebate] Em sete estados amazônicos estão em operação 260 usinas termelétricas, responsáveis pelo abastecimento energético da região. A grande maioria delas é movida a óleo diesel, e despejam por ano 6 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO 2), o principal gás que causa o aquecimento global, na atmosfera. Na região que possui a maior bacia hidrográfica do mundo, por que não utilizar a energia das usinas hidrelétricas?

Um elemento importante que precisa ser observado na bacia Amazônica é a pouca declividade dos rios, e consequentemente, o baixo potencial hidrelétrico. O Rio Amazonas é um exemplo marcante desse fato, por ser um dos maiores rios de planície no território brasileiro. O rio mais volumoso do mundo desce mais ou menos 60m de altitude em 3000km de extensão. Isso significa que para construir uma hidrelétrica é preciso inundar uma área imensa do solo, e ainda assim, a eficiência da energia gerada será pequena. Um caso clássico foi a construção, na década de 80, da hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, afluente do Amazonas. Ela foi projetada entre o planalto e a planície amazônica, e a área a ser inundada foi semelhante à da Usina de Itaipu, no Paraná. No entanto, a eficiência de Balbina é extremamente baixa, não sendo suficiente nem mesmo para abastecer Manaus, enquanto que Itaipu gera 14.000 MW de potência e fornece 17,3% da energia consumida no Brasil.

O geógrafo e professor livre-docente na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), Ariovaldo Umbelino de Oliveira, aponta os impactos que a usina ainda causa nos dias de hoje: “Todo sistema de tubulação está sendo trocado pois a acidez da floresta inundada está o corroendo. É preciso ter cautela com a competência técnica nessas construções. Há muito desconhecimento sobre a natureza e comportamento da Amazônia”.

Por conta disso, as construções de usinas na região sempre geram grande debate. A de Belo Monte, no rio Xingu, é a que mais tem causado polêmicas, devido às paralisações frequentes, fruto de protestos indígenas e de greves por melhores condições de trabalho. O orçamento inicial da obra estava calculado em R$19,6 bilhões, mas o custo já ultrapassou os R$30bilhões. Em relação aos impactos ambientais, o projeto foi refeito para inundar um terço da área inicial (516Km²), além do que, a diminuição da vazão pode afetar a pesca e a locomoção dos índios e ribeirinhos, e é possível que ocorra a redução em um trecho de 100km do rio. “É impossível fazer uma grande obra sem prejudicar o ambiente” afirma Ariovaldo “O que se pode fazer é reduzir o impacto, e nunca eliminá-lo. Se há um rio, e ele é barrado, como é que um cardume de peixes, que sobe e desce o rio para fazer reprodução da espécie, vai poder continuar se reproduzindo?” Nas épocas de seca, Belo Monte tem como garantir a produção de apenas 40% de sua capacidade. “Era preciso que o Estado assumisse o papel de resolver todos os impactos que de fato vão acontecer”.

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e membro do CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente), acredita que “não existe atividade socioeconômica sem trazer prejuízos, mas a grande questão é como diminuí-los”. Ele afirma que as termelétricas jogam muito CO2 no ambiente, afetando todo o ecossistema, e aponta que as hidrelétricas seriam a melhor solução. “A Amazônia é a maior fonte de carbono do mundo. Qualquer alteração que faça as plantas absorverem mais ou menos carbono terá grandes consequências para o planeta”.

Uma das questões essenciais, de acordo com Ariovaldo, que não está sendo discutida é: Belo Monte precisa ser construída? “Para trazer energia de lá, para ser consumida no Centro-Sul, há perdas. Na realidade, serão gerados 11.000 megawatts lá, mas quantos vão chegar aqui? Tudo isso tem que ser ponderado.” Além disso, ele acredita que outras fontes podem ser utilizadas. “A fonte de energia principal que temos no Brasil não é utilizada, que é a energia solar.” Já para Paulo Artaxo, as hidrelétricas seriam uma forma de geração de energia mais limpa. “Vamos emitir muito mais gases de efeito estufa queimando combustíveis fósseis ou iremos construir hidrelétricas na Amazônia? Deve-se levar em conta os impactos, respeitar as sociedades indígenas e fazer um balanço. E cada sociedade deve fazer uma opção. Na França, por exemplo, optou-se- por usinas nucleares.”

Em Manaus todos os meses atracam cinco petroleiros carregados com 180 milhões de óleo para abastecer as usinas termelétricas e o setor de transportes da Região Norte. No entanto, essa é uma operação custosa e complicada, e que além de tudo despeja grande quantidade de CO2 na atmosfera. Na região com a maior bacia hidrográfica do mundo, espera-se que a energia mais consumida seja a das hidrelétricas. Contudo, é preciso levar em conta os impactos sociais e ambientais que essas obras trarão. Uma das opções possíveis é a utilização da energia do sol. A Amazônia tem média de radiação solar três vezes superior à de países como a Alemanha, líder mundial em energia produzida por painéis fotovoltaicos, e a implantação desse tipo de energia em municípios de porte médio ou pequeno é uma operação relativamente rápida que pode reduzir o uso das termelétricas em diversos pontos da região. Qual será nossa opção?

*Deborah Rezaghi é estudante de jornalismo e participa do “7º curso Descobrir a Amazônia – Descobrir-se Repórter”, módulo do Projeto Repórter do Futuro que é organizado pela OBORÉ Projetos Especiais em Comunicações e Artes, IEA/USP – Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

EcoDebate, 29/05/2013

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